Jesus e o Escriba

Jesus e o Escriba

     Então, um mestre da lei aproximou-se e disse: “Mestre eu te seguirei por onde quer que fores” (Mateus 8.19)

     Muitos devem ter considerado a escolha dos doze, feita por Jesus um tanto curiosa. Ele não vasculhou o
Templo em busca dos melhores e brilhantes acadêmicos, e ignorou às inúmeras escolas dos fariseus, pessoas
que dedicavam à vida inteira em obter o favor de Deus. Em vez disso, escolheu Tiago e João, apelidados de
“filhos do trovão”, talvez devido ao seu comportamento bombástico. Chamou o tímido André e o impetuoso
Pedro. Convidou Levi, cobrador de imposto e colaborador de Roma para juntar-se a ele e então mudou seu
nome para Mateus, que significa “presente de Deus”. Optou pelo cínico Natanael e também por Tomé,
conhecido por seus questionamentos e dúvidas. O Senhor escolheu a dedo trabalhadores braçais que fizeram
pouco para esconder suas falhas, e até onde sabemos todos os onze vieram da Galiléia. Apenas Judas veio da
cidade de Queriote, na Judéia.

O olho clínico do escriba
Naqueles dias Jesus era observado pelos escribas, fariseus, saduceus, políticos, curiosos e por todo o povo.
É possível que um “certo” escriba tenha observado Jesus mais de perto. Mateus (8.18-20) registra o ato de
coragem por parte do referido mestre judeu. Nicodemos também era conhecido como renomado mestre em
Israel naqueles dias. Ele procurou Jesus somente à noite com um punhado de perguntas e muitas dúvidas (Jo
3.2). Isso deixa mais que claro, que Jesus é de fato Mestre dos mestres. Já o escriba apresenta-se durante o
dia. Parece não ter medo, e dá um testemunho corajoso. Ele entra no meio do povo aproxima-se do Senhor e
diz: “Mestre, te seguirei por onde quer que fores”. Esse teólogo provavelmente foi atingido pela autoridade e
sabedoria dos discursos de Jesus, bem como pelos atos milagrosos realizados pelo divino Mestre. Ele afirma
que quer daquele momento em diante, seguir o Senhor por toda a vida. Nos registros sagrados, ele foi o único
dos escribas que declarou publicamente sua fé em Jesus.
Para o escriba, Jesus é a perfeição da teologia
Esse escriba, teólogo e mestre, encontra em Jesus a coroação de toda a teologia, e reconhece em Jesus o
maior de todos os teólogos, e acima de tudo, um homem cheio da autoridade divina, por causa dos milagres
que Jesus realizava na presença de todos. É esse admirado Mestre que ele deseja seguir daquele momento
em diante aonde quer que vá. O escriba deseja experimentar a cada dia e cada hora a grandiosidade de seus
discursos e feitos, e neles se regozijar e edificar a vida. Esse teólogo reconhecido pelos fariseus parece ter
chegado no momento certo, ou seja, era uma pessoa bastante conhecedora da teologia, e como o grupo
escolhido por Jesus não tinha nenhum teólogo, ele poderia ensinar teologia ao grupo. Afinal, ele era um
mestre. Um teólogo. Pareceu um homem sincero quando se declarou de forma corajosa e muito direta ao
Senhor que seguiria o Mestre para onde ele fosse. Ele diz: “Professor, quero seguir você por onde quer que
andares”.

O Senhor responde ao escriba
“As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem onde
repousar a cabeça” (Mt 8.20). Jesus informa ao aspirante a discípulo, que seu ministério não tem o conforto
das sinagogas nem do Templo. Em vez disso, ele está onde houver gente sofrendo, não importa quão
desconfortável seja. Essa é a questão destacada por Jesus quando usa seu título favorito, Filho do Homem (Dn
7.13-14). Mas o escriba era um “especialista do ramo!”. Um teólogo entusiasmado que, ao contrário de seus
colegas, não era um adversário. Sendo ele mestre, chama a Jesus de Professor. Veja como são grandiosas as
suas palavras: “te seguirei para onde quer que fores”. O não de Jesus para o escriba tem sentido. Ele conhecia
o coração do Escriba melhor que ele próprio. Para poder seguir a Jesus, não basta ter diploma de teologia,
reconhecimento de mestre, fama de grande pregador ou disposição apenas motivada pelo entusiasmo. Jesus
exige mais que isso quando disse: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e venha”
(Mt 16.24). Se alguém quer – representa decisão séria. Renunciar a si mesmo – significa “abrir” mão de nossa
vontade pessoal. Quando abrimos mão de nosso direito pessoal, aí sim, podemos dizer que Jesus é o Senhor
de nossas vidas.

O engano de muitos
O escriba desse episódio vive em elevados e belos pensamentos e acredita que em Jesus encontrará a
perfeição deles. Jesus, porém, vive no trabalho doloroso: “Tomou sobre si as nossas fraquezas, e carregou as
nossas enfermidades” (Is 53.4). Diante dele estende-se um grande reino de sofrimentos que ele precisa cruzar
de um lado a outro. Precisa comparecer onde há pessoas sem paz, chegar onde há lamento e alcançar os
perdidos. Quando concedeu a paz a um e secou as lagrimas do outro, segue adiante sem descanso para falar
do amor de Deus a outro. O escriba não faz nenhuma idéia que tipo de teologia é essa, que se desgasta em
trabalho penoso pela salvação das almas e renuncia integralmente ao reconhecimento e ao conforto. Essa era
a teologia de Jesus. Teologia do serviço, não da teoria e das idéias “geniais”. Jesus teve de sofrer antes de ser
glorificado (Mc 8.31). O discípulo deve se comprometer a seguir Jesus mesmo que isso lhe cause sofrimento,
ou que resulte em morte (Mt 8.19-20).

Conclusão
Nenhum dos evangelhos informa que entre os discípulos havia um teólogo. Mais tarde, é verdade, Jesus
teve um teólogo entre seus seguidores, e até como “instrumento escolhido”. Esse teólogo, porém, teve de
iniciar como os demais discípulos, a saber, debaixo da submissão a Deus e perguntado: “Senhor, que queres
que faça?” (At 9.6). Paulo depositou os estilhaços de sua teologia aos pés do Senhor Jesus, e aceitou dele uma
nova teologia, ou seja, a teologia do trabalho árduo pelas almas perdidas. É bom saber que a teologia de
Cristo não é a discussão de filosofia enquanto milhares de almas marcham a passos largos para o fogo. A
teologia que nosso Senhor requer de cada um, é o trabalho duro da pregação do evangelho, da salvação dos
perdidos e da propagação da justiça divina. Não há erro algum em ser teólogo, o erro está em não ser
dedicado ou não ter chamada para o ministério. Admiro profundamente o obreiro que é treinado pelo
Senhor, e não apenas fabricado tecnicamente.

Célio Roberto
AD – Vila Espanhola – São Paulo – SP

Célio Roberto

Célio Roberto


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