O AVIVAMENTO PELA PALAVRA NO PENTECOSTALISMO CLÁSSICO

O AVIVAMENTO PELA PALAVRA NO PENTECOSTALISMO CLÁSSICO

 

 Alexandre de Barros Nery[1]

 

“Avivamento é uma obra de Deus pelo seu Espírito por meio da Palavra, levando os espiritualmente mortos a viverem a fé em Cristo e renovando a vida interior de crentes negligentes e sonolentos. […] O avivamento implica numa restauração inicial seguida pela manutenção do renascimento por tanto tempo quanto a visitação durar.” [2]

 

 

I – A NECESSIDADE DE UM AVIVAMENTO

 

Avivamento é um dos assuntos mais comentados entre os cristãos atualmente. O interesse pelo tema pode ser comprovado pelo número de livros publicados, bem como conferências e eventos destinados a explorar este assunto. Mas a igreja evangélica brasileira necessita, de fato, de um avivamento?

Há quem acredite quê vivemos um período de avivamento no Brasil. O crescimento numérico e a participação de evangélicos em diversas posições de influência na sociedade, entre outros fatores, seriam indicativos de que o Brasil experimenta um avivamento.

Outros discordam desta posição. Acreditam que o estado atual da igreja é de negligência e indiferença espiritual, com notáveis exceções. Algumas evidências que corroboram essa posição são: falta de temor, racionalização do pecado, perda de interesse pelas coisas espirituais, ausência de prazer na oração, desinteresse pela Escritura, secularismo etc. Os diversos escândalos, o formalismo crescente, as frequentes manipulações religiosas, e o descrédito de muitos cristãos ajudam na constatação de que precisamos de uma intervenção divina. Precisamos de um avivamento.

Avivamento é uma ação soberana de Deus. Geralmente, quando Deus pretende derramar um avivamento, ele desperta seus servos para clamarem por uma intervenção divina. Fica patente a necessidade de um arrependimento genuíno; há uma fome sincera pela presença de Deus. Todavia, não é possível produzir um avivamento. Avivamento jamais é algo de origem humana. Podemos ansiar por ele, orar por ele, esperar por ele. Mas nunca produzi-lo. Sua fonte é divina.

O movimento pentecostal é fruto de um dos mais poderosos e influentes avivamentos da história da igreja.

 

II – O QUE É SER PENTECOSTAL?[3]

 

Há, basicamente, três formas de tentar definir o que é ser pentecostal. A primeira é a sociológica, que tenta compreender o impacto social significativo que os pentecostais têm causado ao redor do mundo. A segunda é reduzir o pentecostalismo a uma espiritualidade. Isso ocorre na tentativa de juntar o “fervor pentecostal” com uma outra tradição teológica[4]; ou quando se considera a experiência a ênfase central do pentecostalismo, e não a doutrina ou ensino.[5]  

A terceira forma é definir o que é ser pentecostal demonstrando suas bases teológicas, reconhecendo que o movimento pentecostal tem suas raízes em um entendimento bíblico. A centralidade da Palavra de Deus no maior reavivamento de natureza carismática da história da igreja ajuda a explicar a longevidade do movimento. Nesse aspecto, é muito valiosa a caracterização do pentecostalismo clássico por Robert P. Menzies, teólogo e missionário assembleiano:

 

“Na essência, o movimento pentecostal não está centrado no Espírito, mas em Cristo. A obra do Espírito, como pentecostais a entendem, centraliza-se em exaltar e testemunhar o senhorio de Cristo. Os pentecostais ecoam a mensagem apostólica: Jesus é o Senhor. Jesus é quem batiza no Espírito. Observemos também que a fé e a prática pentecostal emanam da Bíblia. É frequente retratarem os pentecostais como extremamente emocionais e experiencialmente conduzidos, mas essa é caricatura da imagem real. Na realidade, os pentecostais são o “povo da Bíblia”. Embora os pentecostais incentivem a experiência espiritual, fazem-no com um olho atendo às Escrituras. Como já observei, a Bíblia, e particularmente o livro de Atos, fomenta e molda a experiência pentecostal. O movimento começou em uma escola bíblia e foi estimulado por um estudo cuidadoso da Bíblia. A natureza centrada em Cristo e dirigida pela Bíblia do movimento pentecostal é característica que não devemos perder de vista.“[6]

 

O pentecostal, em uma perspectiva teológica, possui três convicções básicas. Primeiro, lê o livro de Atos como modelo para sua vida e ministério. O pentecostal facilmente se identifica com as narrativas de Atos. Profecias, curas, expulsão de demônios etc não são um problema. Ele não aborda o livro apenas como a história dos primeiros cristãos; também não vê o evento de Atos 2 como totalmente único. As histórias de Atos são as suas histórias.

Segundo, entende o batismo no Espírito Santo como uma experiência de capacitação profética e missiológica. Não é uma experiência ligada diretamente à santificação ou à maturidade espiritual. A finalidade do batismo no Espírito é capacitar os crentes para o serviço cristão e testemunhar de Cristo. Não apenas os ministros ordenados, mas toda a igreja é (potencialmente) capacitada pelo Espírito. Há a consciência de que vivemos “os últimos dias”.

Terceiro, crê que o batismo no Espírito Santo é marcado pelo falar em línguas. Há um padrão que relaciona o falar em línguas com o batismo no Espírito Santo.

Essas convicções moldaram a prática pentecostal: a ênfase no evangelismo e missões, a mensagem simples e clara, a participação ativa dos leigos, a expectativa do retorno iminente de Cristo, a certeza de que Deus ainda opera maravilhas. Tudo expresso na pregação tipicamente pentecostal: Jesus Cristo salva, cura, batiza no Espírito Santo e em breve voltará.

 

III – O PENTECOSTALISMO CLÁSSICO E O ENSINO DA PALAVRA COMO FONTE DE UM AVIVAMENTO GENUÍNO

 

            A igreja evangélica brasileira necessita urgentemente de um avivamento, e os pentecostais não são exceção. Em muitos lugares, o pentecostalismo envelheceu, seja dando lugar a um formalismo árido, seja tolerando o emocionalismo e a manipulação espiritual. Os dois são mortais: o primeiro mata de fome; o segundo, de envenenamento.

            O ensino da Palavra é tanto a fonte como a condutora de um genuíno avivamento. A seguir, alguns pontos que orientarão a abordagem do tema avivamento à luz das Escrituras.

Primeiro, o objetivo principal de um avivamento é a salvação dos perdidos e a santificação dos crentes. Arrependimento, conversão, uma consagração mais profunda etc são os elementos fundamentais em um avivamento. (At 2.37-47; 4.1-4; 19.1-20)

Segundo, as experiências espirituais, por mais intensas que possam ser, não podem tirar o foco de Cristo e sua obra redentora da cruz (Jo 16.7-14; At 10.38; 16.7; 17.2,3; 1 Co 1.18-25). Essa tem sido uma fraqueza recorrente em alguns ditos avivamentos recentes. Não existe avivamento sem o Espírito; e o Espírito sempre aponta para Cristo.

Terceiro, as experiências espirituais não são um fim em si mesmas, mas servem para a capacitação no serviço cristão (At 1.4-8). Experiências que não nos fazem servir ao próximo com maior interesse podem ser questionadas. A avaliação de Roger Stronstad, erudito pentecostal, sobre este ponto é esclarecedor:

 

“Na condição de comunidade profética, o povo de Deus deverá ser ativo em servir. No entanto, com muita frequência, os movimentos pentecostais carismáticos focam muito mais na experiência, na emoção e nas bênçãos do que no serviço empoderado, guiado e cheio do Espírito. Essa mudança no foco – de uma experiência vocacional para uma pessoal, centrada no mundo egocêntrico – torna o serviço do movimento pentecostal carismático simplesmente tão impotente quanto o serviço da igreja não pentecostal, não carismática. Esse foco maior na experiência que no serviço pode ser comparado negociar o direito de primogenitura do serviço capacitado pelo Espírito em troca de um prato de sopa egoísta de experiência e bênçãos.” [7]

 

 

Quarto, é preciso submeter todas as experiências espirituais à Palavra de Deus. Não podemos abraçar a ingenuidade e assumir que tudo o que ocorre em um avivamento provém de Deus. A Escritura nos ordena a avaliar as manifestações espirituais (Mt 7.15-23; 1 Co 14.29-33; 1 Ts 5.19-22; 1Jo 4.1-3)

Quinto, não podemos confundir avivamento com noções populares sobre o tema. Avivamento não pode ser controlado por nossa agenda. É algo imprevisível (At 2). Nesse sentido, precisamos ter expectativas bem realistas sobre trabalhos com essa finalidade. Podemos ansiar por um avivamento, buscar a Deus por isso etc. Mas somente Deus pode enviar um avivamento.

 

“O ‘reavivamento’ degenerou-se em um punhado de encontros planejados com um orador especial. E ‘nascer de novo’ é com muita frequência igualado a uma oração curta num altar cheio de emoção.” [8]

 

Sexto, não podemos transformar experiências ocasionais em padrão de espiritualidade. Arrebatamentos, “cair no Espírito”, “riso santo” são acontecimentos documentados em diversos avivamentos. Mas sua ocorrência é pontual, ocasional. Transformar experiências pontuais como padrão de espiritualidade é contra a Escritura, além de gerar uma espiritualidade doentia. (Ez 1; Dn 10; 2 Co 12.1-10; Ap 1.9-20).

Sétimo, não presumir que dons espirituais são atestado de maturidade espiritual ou nível de santificação mais elevado. (1 Co 1-3). Pessoas imaturas podem receber dons espirituais de Deus. Isso não as torna mais maduras. A maturidade não é atestada por dons, mas por uma semelhança cada vez maior com Cristo (Rm 8.28-30; Ef 4.9-16).[9]

Oitavo, cuidado com a idolatria ao poder. Como bem disse James Shelton:

 

“A discussão de Lucas também possui outro potencial corretivo para os pentecostais e carismáticos. Assim como alguns cristãos minimizam o poder e a possibilidade de manifestações sobrenaturais, outros podem estar muito focados em poder. O próprio Jesus aconselhou seus discípulos, depois que os Setenta retornaram de um ministério bem-sucedido de pregação, cura e exorcismo: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10.20). Apenas Lucas preserva essa palavra de Jesus. No próximo instante, no entanto, Jesus “se alegrou no Espírito Santo” pelo poderoso avanço do Reino de Deus sobre o poder do inimigo (10.21). Por exemplo, Lucas registra o pecado de Simão, o mago que tentou comprar o poder do Espírito Santo (At 8.9-24). Ele estava buscando o poder e não a pessoa, a autoridade e não o Reino. Lucas não rejeita o poder; ele simplesmente rejeita o culto ao poder.”  [10]

 

 

Por fim, é necessário que quem ensina sobre avivamento busque viver a experiência pentecostal, conforme as Escrituras (1 Co 14.5,18,19). Dessa forma, os alunos poderão ver o conteúdo ensinado sendo vivenciado em nossa própria vida; ainda que de modo imperfeito, mas genuíno.

 

CONCLUSÃO

 

Somente a Palavra de Deus pode gerar, nutrir e conservar um avivamento segundo o propósito de Deus. Oremos, jejuemos, e aguardemos por isso.

Que Deus esteja conosco!!

 

 

 

[1] Pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém; congrega no setor 18 – Vila Espanhola.

[2] Isael de Araújo, Dicionário do Movimento Pentecostal (Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 109.

[3] Essa seção basicamente resume os argumentos de Robert P. Menzies, Pentecostes: essa história é a nossa história(Rio de Janeiro: CPAD, 2016).

[4] Para saber mais, leia Walter McAlister, com John McAlister,  O pentecostal reformado(São Paulo: Vida Nova, 2018).

[5] David Mesquiati e Kenner R.C. Terra, Experiência e hermenêutica pentecostal :reflexões e propostas para a construção de uma identidade teológica (Rio de Janeiro: CPAD, 2018).

[6] Menzies, op. cit., p. 17.

[7] Roger Stronstad, Teologia lucana sob exame. (Natal: Editora Carisma, 2018, p. 227).

[8] Rick Nañez, Pentecostal de coração e mente (São Paulo: Editora Vida, 2007, pp. 59,60).

[9] Para aprofundamento nesse assunto, veja William W. Menzies e Robert P. Menzies, No poder do Espírito: fundamentos da experiência pentecostal: um chamado ao diálogo (São Paulo: Editora Vida, 2002), especialmente as pp. 237-250.

[10] James Shelton, Poderoso em palavras e obras. (Natal: Editora Carisma, 2018, p. 233).

Alexandre Nery

Alexandre Nery


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