BURNOUT: OBREIRO QUE CUIDA PRECISA DE CUIDADOS.

O obreiro que cuida precisa de cuidados

A síndrome de burnout também é conhecida como a síndrome do esgotamento profissional, que se manifesta através de vários fatores como: cansaço, frustração, pressão, sobrecarga de trabalho, entre outros motivos que podem levar ao esgotamento físico e psíquico. O termo burnout origina-se do inglês, onde o verbo burn significa queimar e a partícula out, quando adicionada ao verbo, dá o sentido de queimar por completo.  

O termo surgiu em 1970 e foi criado pelo psicólogo Herbert Freudenberger, de origem judaica, que se radicou em Nova York fugindo do nazismo. A constatação da síndrome se deu em si mesmo, quando Herbert se tornou exageradamente irritado, esgotado metal e fisicamente. O excesso de trabalho sem o descanso devido e outras atribuições que assumira, dentro da profissão e como voluntário, foram uma soma altamente destrutiva para sua saúde. Certa vez, disse:

“Se você já viu um prédio que foi queimado, você sabe que é uma visão devastadora… alguns tijolos ou concreto podem ser deixados, o desenho das janelas. De fato, o exterior pode parecer quase intacto. Mas quando você entra e vê por dentro, será impactado por uma real desolação.”

“Muitos estão exatamente neste cenário de desolação, pois têm muita coisa pra cuidar, pessoas para aconselhar, textos para ler e escrever sermões, tenho que ser pai, pastor, psicólogo, tenho que ser bem sucedido, tenho que ser promovido, tenho que ganhar mais, tenho que agradar a todos…”

Essas e outras situações vão se acumulando dentro de nós e tirando toda a carga ou energia que nos deixa motivados para seguir a vida. Circunstâncias como estas tiram nosso fôlego, pois todo o excesso de trabalho sem o sentimento de satisfação, leva ao esgotamento e, em muitos casos, em que a pessoa já tenha uma doença mental associada, pode levar ao suicídio.

No contexto eclesiástico, portanto dentro das igrejas, muito trabalho também pode ocasionar este transtorno, principalmente nos cargos de liderança. O acúmulo de funções e compromissos, somado ao pensamento de que a obra do Senhor só vai à frente se estiver liderando podem causar grandes prejuízos relacionais e de ordem emocional. Quando a pessoa percebe que não tem o controle absoluto sobre tudo e começa a não conseguir cumprir compromissos, a frustração bate à porta trazendo tristeza e sentimento de angústia.   

Conversamos com a irmã e psicóloga Luciana Valentim* que tem formação em Psicologia Clínica e especialização em Neuropsicologia pela FMUSP. Ela é membro da Assembleia de Deus, ministério Perus e nos esclareceu alguns pontos importantes sobre o assunto. Ela nos contou sobre sua palestra referente ao tema – A Síndrome de Burnout e o Ministério Eclesiástico.Segundo ela, a Síndrome de Burnout envolve três componentes independentes, mas que podem parecer associados como sintomas: exaustão emocional, distanciamento das relações pessoais e diminuição do sentimento de realização pessoal, que também pode vir ou não associada ao transtorno depressivo ou de ansiedade.

     Quando falamos sobre como isto pode afetar a áreas pessoal, profissional e espiritual, a psicóloga nos disse que:” a Síndrome de Burnout é uma condição referente ao labor  e por causa da exaustão emocional a pessoa pode apresentar falta de concentração, alterações de memória, impaciência, irritabilidade, labilidade afetiva (mudanças súbitas e imotivadas de humor) sentimento de solidão e desânimo. Resultando aos poucos em desmotivação e insatisfação, exercer a função torna-se cansativo e desgastante,a pessoa não tem mais energia para desempenhar suas atividades, perdendo gradativamente a vontade de trabalhar ou de exercer, neste caso, o chamado ministerial, afetando sua autoestima e as suas relações interpessoais.

 Com relação ao acúmulo de funções, ela nos disse que o obreiro Cristão na maioria dos casos são voluntários ou não recebem de acordo com as suas funções e dedicação, por isso precisam trabalhar secularmente, somando as funções e atividades ministeriais, como a interação do indivíduo com as várias pessoas e seus problemas, administração da igreja com seus vários departamentos, em alguns casos a dificuldade de delegar funções temendo que outras pessoas não apresentem  zelo ou comprometimento,os próprios problemas pessoais, as cobranças externa e /ou internas.

       É o cenário propício para o esgotamento deste obreiro, influenciando no seu  trabalho , saúde física, emocional e espiritual.

A Psicóloga Luciana Valentim nos deu dicas de prevenção. “Precisamos melhorar a qualidade das nossas relações interpessoais (Hb 13:17 e Sl 133:01), diminuir as ansiedades ( Mt 6:25-34 ) lembrando que não somos desse mundo mas ainda estamos nele ( Jo 17:15 ). Exercitar a delegação de funções e divisão de trabalho (Ex.18:17-23) junto com exercícios físicos, boa alimentação, período de férias, lazer, passeios e aplicar a sábia recomendação de Paulo ( I Tm. 4:16 ) para um Obreiro.

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.”

O Professor Universitário Natanael Marcos de Lima complementou dizendo que:  “A maior cobrança, sem dúvida, vem de si mesmo. Estamos vivenciando um momento em que a performance ou desempenho tem mais valor do que a pessoa em si. As pessoas são medidas pelos números, pelos índices, pelos resultados. É um pragmatismo que pode funcionar por um tempo, mas quando as pessoas são esquecidas, em prol de objetivos e metas, precisamos rever todo o processo. Que tenhamos tempo para Deus, para a família, para as atividades eclesiásticas e, também, para cuidar da saúde metal e física. Para Deus, o que somos ainda é mais importante do que qualquer tarefa ou ocupação que temos. ”

Seja como obreiro, no aspecto eclesiástico, ou como trabalhador secular, temos uma grande ameaça à saúde física e mental. Sabemos que o imediatismo em nossos dias, a falta de saciedade com o que possuímos, como descrito na frase bem conhecida: “O céu é o limite”, além da falta de motivação no trabalho, trazem significativos prejuízos pessoais e familiares. É importante entendermos isto e procurarmos ajuda profissional, pois aquele que cuida também precisa de cuidados.

 

Referências:

https://stephaniedobbin.com/meet-the-man-who-discovered-burnout/ u

Canal do youtube: dois dedos de teologia – Tema Burnout. Link: https://youtu.be/HCjPhPocoBg

Canal do youtube: Território Conhecimento – Luiz Felipe Pondé – Burnout. Link: https://youtu.be/q7v_aCnzSx8

*Palestra da Psicóloga Luciana Valentin: A Síndrome de Burnout e o Ministério Eclesiástico.

Livro Esgotamento Espiritual – autor Malcolm Smith – Editora Vida (2009)

Livro Igreja Saudável – autora Telma Bueno – Editora CPAD (2019)

Jhonatas Weslley

Jhonatas Weslley


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